
Portugal passou de 410 projetos de autoconsumo coletivo em exploração em julho de 2025 para 2.020 em julho de 2026. Ao mesmo tempo, novas regras facilitaram decisões nos condomínios e digitalizaram parte dos procedimentos. Uma análise da Pronto Soluções identifica ainda 36.817 edifícios construídos para três ou mais alojamentos em seis municípios do Grande Porto.
Durante anos, falar de painéis solares em casa significou sobretudo imaginar uma moradia com um telhado próprio.
Para quem vive num apartamento, a realidade é diferente. O telhado pertence normalmente ao condomínio, a decisão envolve vários proprietários e a energia produzida pode ter de ser repartida entre diferentes consumidores.
Mas o autoconsumo coletivo em Portugal está a ganhar outra dimensão.
Em julho de 2025 existiam 410 projetos em exploração. Em julho de 2026 eram 2.020, segundo números divulgados a partir de dados da Direção-Geral de Energia e Geologia.
Isso representa um crescimento de aproximadamente 393% em apenas um ano, segundo cálculo da Pronto Soluções. A DGEG confirma ainda que 837 projetos foram acrescentados entre junho e julho de 2026.
De 410 para 2.020 projetos de autoconsumo coletivo
A mudança de escala é clara:

- Julho de 2025: 410 projetos
- Julho de 2026: 2.020 projetos
- Aumento: 1.610 projetos
- Crescimento: aproximadamente 393%
- Resultado: 4,9 vezes mais projetos num ano
Os cálculos percentuais são da Pronto Soluções, com base nos valores divulgados pela DGEG.
Há, contudo, uma distinção importante: 2.020 projetos não significam 2.020 condomínios.
A DGEG refere que estes modelos envolvem cidadãos, empresas, entidades públicas e comunidades. O número também não revela quantas famílias participam, quanta eletricidade é produzida ou quanto os participantes poupam.
O que é o autoconsumo coletivo?
No autoconsumo coletivo, vários consumidores podem beneficiar da eletricidade gerada por uma ou mais unidades de produção.
Num condomínio, isso pode permitir que energia produzida por painéis fotovoltaicos instalados numa cobertura comum seja partilhada entre diferentes participantes.
A DGEG descreve o modelo como uma forma de aumentar a produção local e a partilha de energia entre consumidores.
Um guia publicado pela ADENE, ERSE e E-REDES dá uma ideia da escala possível: num exemplo de um edifício com cerca de 60 apartamentos e 600 m² de cobertura, estima-se a possibilidade de instalar aproximadamente 100 kW de potência fotovoltaica, dependendo naturalmente das características concretas do imóvel.
É aqui que o autoconsumo coletivo se torna especialmente relevante para cidades dominadas por edifícios multifamiliares.
Duas mudanças em 2026 facilitaram o caminho para os condomínios

O crescimento nacional coincide com duas alterações importantes.
Desde 1 de julho de 2026, a instalação e exploração de unidades de produção para autoconsumo em prédios com pelo menos duas frações autónomas pode ser aprovada por maioria simples dos condóminos. A mudança resulta da Lei n.º 29/2026, que alterou o artigo 1425.º do Código Civil.
Depois, a 28 de agosto de 2026, entrou em vigor o Decreto-Lei n.º 130/2026 para novos procedimentos. Segundo a DGEG, os operadores das redes de distribuição devem permitir que os pedidos de ligação à rede e os documentos relevantes sejam apresentados exclusivamente em formato digital.
Nenhuma destas alterações torna um projeto automático.
Continuam a existir questões técnicas, económicas, de dimensionamento e de organização entre os participantes. Mas dois obstáculos concretos, a aprovação do condomínio e parte da burocracia de ligação, foram alterados no mesmo período em que o número de projetos acelerou.

Grande Porto tem 36.817 edifícios com três ou mais alojamentos
A dimensão desta oportunidade torna-se mais interessante quando olhamos para o parque habitacional.
A Pronto Soluções compilou os dados dos Censos 2021 relativos aos edifícios clássicos construídos para possuir três ou mais alojamentos em Porto, Matosinhos, Vila Nova de Gaia, Maia, Gondomar e Valongo.

O resultado é 36.817 edifícios.
| Município | Edifícios com 3+ alojamentos |
|---|---|
| Porto | 12.127 |
| Vila Nova de Gaia | 8.369 |
| Matosinhos | 5.688 |
| Gondomar | 4.846 |
| Maia | 3.232 |
| Valongo | 2.555 |
| Total | 36.817 |
Fonte: Censos 2021. Compilação Pronto Soluções.
O Porto destaca-se especialmente: dos seus 39.303 edifícios clássicos, 12.127 foram construídos para três ou mais alojamentos, cerca de 31% do total.
Gaia apresenta outros 8.369, Matosinhos 5.688, Gondomar 4.846, Maia 3.232 e Valongo 2.555.
Isto não significa que existam 36.817 telhados preparados para receber painéis solares.
O número identifica apenas o universo de edifícios multifamiliares onde a oportunidade pode ser estudada.
Um prédio adequado no papel pode não estar preparado na prática
A área do telhado é apenas uma parte da equação.
Para perceber se um condomínio tem condições reais para autoconsumo coletivo é necessário considerar, entre outros fatores:
- área útil e orientação da cobertura;
- sombras;
- estado do telhado;
- instalação elétrica existente;
- número e perfil de consumo dos participantes;
- investimento necessário;
- regras de partilha da energia.
O guia oficial para condomínios chama ainda a atenção para a infraestrutura elétrica comum dos edifícios, recomendando avaliar a ligação e capacidade disponível antes da instalação.
Por isso, parque habitacional potencial e parque habitacional tecnicamente preparado são duas coisas diferentes.
Porto já tem um exemplo com 180 famílias
A partilha residencial de energia também já deixou de ser apenas uma hipótese no Porto.
A Comunidade de Energia Renovável da Agra do Amial, em funcionamento desde maio de 2024, partilha energia fotovoltaica entre habitação municipal e uma escola pública.
Documentos municipais indicam que o projeto beneficia 180 famílias e tem cerca de 114 kWp de potência instalada. O Município reportou também uma redução média próxima de 40% nas faturas de energia dos participantes.
Esse resultado não deve ser usado como previsão para um condomínio privado. O investimento, financiamento, consumo e características de cada projeto são diferentes.
Mas prova que a partilha de energia entre múltiplas habitações já está a funcionar dentro da cidade.

36.817 edifícios não são 36.817 oportunidades solares
É precisamente aqui que começa a próxima pergunta.
Os dados nacionais mostram que o autoconsumo coletivo está a crescer rapidamente. Os Censos mostram que o Grande Porto possui dezenas de milhares de edifícios multifamiliares.
O que ainda não sabemos é quantos desses edifícios têm condições técnicas, económicas e físicas para participar.
Responder exigirá cruzar o parque habitacional com informação sobre coberturas, exposição solar, consumo, idade dos edifícios, capacidade elétrica e localização dos projetos de ACC já existentes.
A própria legislação de 2026 prevê informação atualizada que permita identificar e mapear os projetos de autoconsumo coletivo existentes em Portugal.
Essa análise permitiria finalmente distinguir quantos prédios existem de quantos podem realisticamente produzir e partilhar energia solar.
A próxima fase do solar pode estar nos telhados partilhados
Portugal passou de 410 para 2.020 projetos de autoconsumo coletivo em apenas um ano.
Ao mesmo tempo, o Grande Porto tem 36.817 edifícios construídos para três ou mais alojamentos, e as regras para aprovação em condomínios e submissão de novos procedimentos mudaram em 2026.
Nenhum destes números prova que milhares de condomínios vão instalar painéis solares.
Mas mostram que a pergunta está a mudar.
Durante anos, discutiu-se quantas moradias poderiam produzir a sua própria energia.
Agora começa a fazer sentido perguntar:
quanto do enorme parque de edifícios partilhados das cidades portuguesas poderá participar na próxima fase da energia solar?
Mais investigação sobre a vida dentro das casas portuguesas em Portugal em Casa.
Nota metodológica
A análise do Grande Porto considera Porto, Matosinhos, Vila Nova de Gaia, Maia, Gondomar e Valongo. O total de 36.817 corresponde à soma dos valores dos Censos 2021 para edifícios clássicos construídos estruturalmente para possuir três ou mais alojamentos.
O valor não representa uma estimativa de edifícios aptos para energia solar. Não foram considerados nesta fase área de cobertura, orientação, sombras, estrutura, infraestrutura elétrica, consumo ou viabilidade económica.
Fontes principais
DGEG, procedimentos ACC/CER:
https://dgeg.gov.pt/pt/destaques/comunicado-submissao-de-pedidos-de-acc-cer/
Lei n.º 29/2026:
https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/lei/29-2026-1135578391
Decreto-Lei n.º 130/2026:
https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/130-2026-1139897687
Guia do Autoconsumo em Condomínios:
https://www.e-redes.pt/sites/eredes/files/2025-07/Guia%20do%20Autoconsumo%20em%20Condom%C3%ADnios.pdf
